
Falei Discuti com o meu pai há umas semanas por não ter a certeza do curso que devia seguir, da ideia de tirar um ano para pensar me agradar bastante por ter medo de tomar decisões que me viesse a arrepender (não está nos meus objetivos trocar de curso no 3º ano da faculdade, quando perceber que aquilo não é para mim). Não fosse o meu pai do século XV, o discurso que se seguiu foi bastante inspirador e confortou-me imenso: "Tirar um ano para pensar? Estás louca? Eu e a tua mãe andamos aqui a brincar? A gastar dinheiro para a menina andar a passear? Se não gostares do curso, azar! Achas que eu gosto do que faço? Se pudesse trocar de emprego nem pensava duas vezes, mas é preciso trazer o dinheiro para casa, sabes? Não sabes o quanto custa a vida, és uma egoísta, só pensas em ti." Eu sei que ele fala como se vivêssemos numa cabana onde o teto está quase a cair, mas isso está longe de ser verdade. Os meus pais têm emprego sólido, ganham relativamente bem e a minha irmã já não é mais uma boca para alimentar (já é médica e ganha o seu próprio salário por mês). Graças a Deus, nunca senti o que é a crise pela qual o país passa. Nunca me faltou comida, roupa, nunca fiquei em casa por não ter dinheiro para ir sair, nunca não comprei alguma coisa que me fosse necessária por falta de dinheiro. Mas o meu pai é uma pessoa muito negativa e com ideias muito fixas. Lá na cabeça dele, medicina é o único curso que ainda garante a vida a um jovem. Usa sempre o exemplo da minha irmã, que vai sair todos os fins-de-semana, comprou agora um carro novo, viaja imensas vezes com o namorado, etc. O que ele não sabe é que as amigas enfermeiras e bioquímicas da minha irmã ganham mais do que ela. Não sabe também que medicina podia ser, de facto, no passado, a opção mais viável, mas agora é tão viável como as outras. Já há excesso de médicos e, pela altura em que eu acabar o curso, Medicina vai estar tão no fundo como os outros cursos todos.
No entanto, as coisas que ele diz não entram a cem e saem a mil. Já reparei que falo como ele várias vezes e não me conheço quando o faço. Estou de tal maneira condicionada ao que ele diz que começo mesmo a achar que o que importa é ter emprego e ganhar dinheiro; que fazer o que se gosta é um sonho que, nestes tempos, ninguém se pode dar ao luxo de conquistar. Outras vezes, apetece-me mandá-lo dar uma volta, fazer o que eu quero e que sei que está certo e apoiar a ideia de que, de facto, o mais importante é gostar da profissão que se tem.
O meu trabalho é dificultado pelo facto de não ter nenhum curso que adore imeeenso. Se tivesse, acho que acabaria por escolhê-lo, com ou sem o apoio do meu pai. Não tendo, é muito mais difícil contrariá-lo, porque estou confusa e ele tem sempre argumentos. A minha irmã foi uma sortuda por perceber que queria ser médica, logo no 9ºano. Nunca teve que discutir com o meu pai sobre opções de faculdade, porque sempre estiveram ambos de acordo. Eu estou perdida aqui no meio entre "não me chatear, ir para Medicina porque afinal até nem desgosto e, assim, agrado ao meu pai" ou "não ir para Medicina porque só deve ir quem gosta mesmo e não se vê a fazer outra coisa". Claro que não acho que devo ir para determinado curso só porque o meu pai quer que o faça, mas é tão difícil arranjar coragem para contrariá-lo e fazer algo, sabendo que estou a desiludi-lo ou que não tenho o apoio dele... Afinal de contas, é o meu pai e não estamos numa novela da TVI, em que os pais são rígidos, mas os filhos acabam por seguir o seu próprio caminho e são sempre bem sucedidos no fim, nunca tendo que ouvir um "eu avisei-te" por acabarem a trabalhar numa caixa de supermercado.